A lentidão sábia de Francisco de Assis

Um dos aspectos mais encantadores na história de Francisco de Assis foi a sua humildade em expor os seus limites enquanto ser humano. Pode-se afirmar que foi um homem que se tornou santo sem deixar de ser homem, como diz Chiara Frugoni, que escreveu uma das suas biografias mais notáveis.

As verdadeiras metamorfoses humanas não são rápidas, pois dependem de uma releitura interior, que é um processo que nada tem de instantâneo. Só após esse processo é possível projetar-se de outro modo no mundo e, claro, perante si mesmo.

Por isso, suspeito que as propostas espirituais que prometem conversões mágicas são pouco consistentes. Do mesmo modo, as terapias psicológicas que prometem mudanças instantâneas a partir de técnicas que mais se assemelham a dribles mentais são pouco confiáveis, quiçá perigosas.

Os vários filmes biográficos de Francisco mostram sua conversão a partir de um sonho ou de uma voz vinda do crucifixo dentro da igrejinha, momento em que tudo passou a ser diferente na vida dele.

Porém, a pesquisa histórica sobre a vida do pobrezinho de Assis revela outro caminho que foi bem mais lento e duro. Fica claro na história que aquele Francisco que sabia ver com o coração foi forjado ao longo do tempo, a partir das revelações místicas, mas também de suas angústias e seus próprios equívocos.

Como diz Chiara Frugoni: o lento amadurecimento da “conversão” finalmente eclode não como “lugar-comum” hagiográfico, e sim como progressivo despojamento.

A conversão de Francisco durou entre três e quatro anos, a considerar a fase mais aguda. Se se tomar a vida boemia que levava, com festas, amigos, mulheres e bebidas, o processo foi ainda mais longo.

O fato é que, lentamente, esta vida festiva foi ficando vazia para ele. Chegou até a sonhar em ser um famoso cavaleiro, mas, depois de participar de uma batalha, sentiu na pele quantas mortes havia por detrás da história de um cavaleiro. As guerras sempre foram a tradução de muito sofrimento.

Depois, veio um período de introspecção, no curso do qual passou a observar melhor as pessoas, o sofrimento dos leprosos e miseráveis, ao mesmo tempo em que passou a perceber de modo mais detido a natureza. Andou pelos campos, abraçou e beijou leprosos. Durante esse período foi considerado um desajustado, irresponsável e até louco.

Só depois de certo tempo ele começou a perceber a liberdade que, passo a passo, estava sendo conquistada com base em uma proposta de amor e, assim, teve a oportunidade de saborear a sua alegria.

Foi a partir de então que a alma das coisas lhe acariciava docemente e lhe infundia tranquilidade, como poeticamente relatou outro biógrafo muito respeitado, Paul Sabatier. 

Essas transformações lentas também se deram em outras etapas de sua vida, mediante crises próprias dos homens. Pode-se citar como exemplo quando tomou a decisão de pedir a aprovação do Papa para a sua ordem religiosa ou quando aceitou a elaboração de regras para esta mesma ordem.

Tudo se deu com lentidão que não constou dos filmes sobre sua vida, especialmente os mais românticos. Um dos versos da “Canzone de San Daminano” sintetiza bem esse espírito: se você quiser, com o seu suor, todos os dias, uma pedra sobre a outra, alto chegará.

Pois bem, essa lentidão franciscana do século XIII pode ser inspiração para nós em pleno século XXI. Hoje vivemos o mundo da celeridade insana, que exige respostas rápidas e alta produtividade, também porque plasmado nas tecnologias.

O fato é que não é raro nos sentirmos improdutivos, desajustados por deixarmos de produzir resultados segundo os critérios – adotados como dogma – para o desenvolvimento de uma sociedade de consumo. Esse sentimento é nocivo por razões que sequer necessitam ser arroladas.

Por isso e tendo como inspiração a própria lentidão sábia de Francisco, é preciso repensar essa vida frenética. Talvez possamos começar refletindo sobre a diferença entre o que é necessário e o que é útil.

Essa reflexão poderá nos conduzir ao entendimento de que, quando nos dedicamos com muita luta a conquistar o útil, sempre fazemos com o tempo e não com dinheiro propriamente dito, ainda que tais coisas úteis possam apresentar externamente um preço.

Perceber a preciosidade que é o tempo pode mudar de modo sensível sua postura perante a vida. Poderá, inclusive, fazer dar-se conta de que é rico ao ter tempo para fazer o que gosta ou de estar ao lado de quem você ama.

Em homenagem ao dia de Francisco de Assis, convido a todos a aquietar um pouco o coração e a desfrutar do tempo como um tesouro vocacionado a trazer paz. 

Comentários

Postagens mais visitadas