SEM ARTE NÃO HÁ MUDANÇA.
Peça: “Nuevas directivas en tiempos de paz”. Autor: Bosco Brasil (2001). Encenado em 2002 no Brasil. Montado pelo
grupo El Galpón, em Montevidéu. Esteve mais de um ano em cartaz entre 2012 e 13.
Narra a
estória de Clausewitz, judeu polonês que fugia da Segunda Grande Guerra e
tentava entrar no Brasil. As cenas transcorrem em uma sala do setor de imigração do Porto do Rio de Janeiro em abril de 1945.
O oficial
da imigração era Sigismundo, militar, que revelava frieza de quem já havia se
habituado a ver violência e desumanidade. Carregava em seu currículo a execução
de tortura em cumprimento a ordens superiores.
Clausewitz necessitava
do salvo-conduto para ingressar no Brasil. Alegava ser agricultor e que o
Brasil necessitava de mão-de-obra para lavrar a terra.
Sigismundo se
inclinava a não atender ao pedido do polonês. Mas propôs um desafio ao
estrangeiro: iria liberá-lo se ele o fizesse chorar. Mas havia pouco tempo para
isso, porque o barco que o deportaria estava de partida.
Clausewitz
começou a contar os horrores da guerra. Contou que viu sofrimento e morte de
familiares e amigos. Sigismundo não se abalava.
Como último
recurso, Clausewitz começou a recitar fragmentos da poesia “A vida é sonho”, de
Pedro Calderón de la Barca, nos quais havia um personagem que se chamava
exatamente Sigismundo. Surpreendentemente, o oficial se emocionou e verteu
lágrimas.
Surpreendido,
Sigismundo resolveu autorizar a entrada do estrangeiro no Brasil. Naquele
momento, Clausewitz revelou que era, na verdade, ator. Revelou também que o
Brasil necessitava mesmo era de mais teatro.
***
A obra de
Bosco Brasil é verossímil. Aliás, hoje é necessário ter cuidado ao dizer que
uma obra é destituída de verossimilhança. O motivo é simples: as coisas reais
que testemunhamos parecem que são irreais. É o surreal como parte do real. A fronteira entre
o real e o irreal desapareceu. Como escutei certa vez, “Kafka, se vivo
estivesse, seria considerado um repórter”.
Na peça, o
agente da imigração foi comovido pela arte. Foi movido juntamente com o
personagem. E isso não é um absurdo e nem um exagero. Somente a linguagem da
arte tem a capacidade de chegar à intimidade do ser humano para movê-lo. A arte surpreende a defesa dos corações mais duros.
Por mais
primoroso que seja, nenhum livro de história, petição técnica, estudo, reportagem ou
documentário tem a capacidade de romper barreiras como a arte. É bom que se diga que os historiadores,
filósofos, juristas, jornalistas, economistas, sociólogos são sumamente importantes. Mas
todos eles me parecem pouco eficazes sem a arte.
Heidegger
concluiu que a linguagem da formalização técnica era limitada para revelar o “ser”.
Sua fenomenologia significou uma (r)evolução em direção à alma humana porque reconheceu a poesia como a forma mais eficaz de aproximar-se da
verdade.
Conhecedor
das entranhas humanas, Jesus preferiu deixar o seu legado por meio de
narrativas. Inventou estórias. Ele sabia que seria inócuo deixar um sofisticado
tratado de ética.
Portanto,
se queremos que o País mude, é preciso arte. Mais arte. Muito mais. Qualquer
caminho para um mundo melhor que desconsidere ou subestime a arte será infrutífero.
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