A literatura como espelho da contradição humana


Sou um homem de muitas dúvidas, mas vai se tornando possível constatar a certeza de que o ser humano é uma contradição ambulante. Creio que seja assim, porque assim é a natureza humana. Então, se pretendemos entender alguma coisa de nós mesmos, suspeito que, para começar, precisamos da coragem de assumir que somos um pacote de contradições inevitáveis.

Mas para reconhecer isso é necessário um movimento que traz dores, porque exige que olhemos para dentro de nós mesmos. Implica jogar luzes sobre nossas mazelas, muitas vezes as mesmas que denunciamos nos outros. Mas, por outro lado, pode ser libertador. Esse processo nos dá a oportunidade de sermos um pouco mais generosos com as limitações e os equívocos alheios.

Digo isso porque a literatura enquanto arte – e não enquanto entretenimento – é preciosa exatamente porque pode ser um verdadeiro espelho do ser humano. Ela poderá levar o leitor a deparar-se com as suas próprias misérias e contradições, e, assim, levá-lo a conhecer-se integralmente e não pela metade.

É inquietante viver a angústia de Raskólnikov, por exemplo, o personagem principal de “Crime e Castigo”, de Dostoievski. Ele assassina a proprietária do imóvel em que residia. Depois de cometido o crime, passa a questionar sobre o dever ou não de ser punido e vive em constante agonia. Não se trata de uma trama policialesca ou um drama psicológico como pode parecer à primeira vista, mas, sim, o enfrentamento da pergunta fundamental sobre o bem e o mal que nos habita. É, enfim, um retrato fiel da permanente tensão com a qual o ser humano é obrigado a conviver.

A verdade é que não somos só bonzinhos. No dia-a-dia, para não destroçarmos tudo, interpretamos o tempo todo para esconder o nosso lado miserável. A teatralidade nos salva. Fazemos arte ao vivo.

Não podemos nos esquecer que só nos conhecendo de modo integral, incluída nossa parte sombria, é que teremos chances de sermos íntegros, plenos. Quem gosta de divisão é o diabo (diabo” significa divisão, conflito).

Por isso, me intrigam muitas propostas religiosas que se curvam mais à proibição moralista e à negação das sombras que nos habitam do que à busca, sem disfarces, pela compreensão da natureza humana tal como ela é. Uma leitura antropológica do livro do gênesis pode mostrar o quanto a alma humana é libertária e contraditória. Negar essa característica é negar a verdadeira natureza do ser humano.

A literatura enquanto arte não pode ser um refúgio, mas penetração corajosa na realidade do ser humano. Quem acha que a literatura e a arte em geral servem apenas para a distração, as confunde com o entretenimento. Por essa razão, não me encantam os filmes hollywoodianos, mesmo com os seus numerosos méritos. As histórias demasiadamente açucaradas de “happy end” tampouco me interessam. Nem como entretenimento.

Isso não significa que a doçura e a delicadeza não têm lugar na literatura. Há inegável componente estético na suavidade. Gosto das narrativas sutis, pouco impactantes na aparência. O que me refiro é que as histórias de fadas, as melodramáticas, não vão além de entreter. 

Em sendo assim, acredito de verdade que o escritor deve ser corajoso o suficiente para dialogar com o seu inconsciente, onde dormem seus medos e suas inseguranças, onde se encontra a sua mais cândida doçura, mas se esconde a sua mais vergonhosa perversidade. Depois, deve revelar essa efervescência humana em sua arte.

Ao revelar a alma humana na sua obra, o artista nos faz um favor, porque nos provoca com um espelho e nos convida a entrar em nosso próprio quintal sujo e desarrumado que insistimos em negar.

É um absurdo dizer que a literatura se limita a ser útil, porque ela é necessária. Ela nos dá a experiência viva de reconhecer no outro um ser tão contraditório quanto a nós. Até Jesus escolheu a narrativa ficcional para tentar chegar ao coração do homem. Como disse, a arte provoca de modo contundente o autoconhecimento. E como não há liberdade sem o autoconhecimento, corremos o risco de não sermos livres ou, pelo menos, perdemos a oportunidade de conquistá-la através da literatura (ou da arte em geral).

Um povo que lê e tem sede de literatura é mais maduro, pensa e decide melhor, vive melhor. Deixa de ser tacanho e provinciano. Por tudo isso, uma das plataformas de governo que gostaria de escutar nos palanques eleitorais é: mais literatura e mais arte para emancipar e libertar o nosso povo.

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