Um projeto de solidão para o fim do século XXI
Filme: Ella (Her), de Spike Jonze (2014), com Joaquin Phoenix como
protagonista.
É a estória de Theodore (Theo), um escritor de cartas aprisionado pela solidão
da tecnologia.
Tudo se passa em um cenário de sofisticação em uma Los Angeles repleta
de soluções tecnológicas inteligentes. Os equipamentos funcionam ao comando da
voz em extrema praticidade e facilidade.
No entanto, mostra também como as pessoas caminham pelas ruas e pouco se
falam, quase sequer se olham. Mas todas conectadas aos seus dispositivos
eletrônicos.
Até mesmo no trabalho, cada qual está mais conectado ao seu próprio
sistema do que ao companheiro da mesa ao lado a menos de cinco metros de
distância.
Recém-separado, Theo revela notória angústia. Não deixa dúvidas de que se
sente só e possui um vazio que necessita ser preenchido.
Theo adquire um novo sistema operacional inteligente para seu computador
e começa a interagir com ele. O sistema autodenominou-se de Samantha. A sua voz
é nada menos que a de Scarlett Johansson.
O sistema operacional começa a desenvolver-se e a ganhar o perfil
desejado pelo seu proprietário. A cada nova informação transmitida por Theo o
sistema a ele se amolda cada vez mais e começa a responder como se fosse um ser
dotado de emoções.
Theo aprofunda sua solidão e encontra em Samantha a companheira ideal. Faz
confissões a ela e até mesmo mantém uma relação sexual cibernética. Chegou a
ponto de desesperar-se ao passar por situação em que a subsistência do sistema
operacional foi ameaçada.
O final constata o óbvio sobre os limites da tecnologia. Mas é também uma boa advertência sobre os rumos da nossa relação com a
tecnologia neste século XXI. Vale a pena conferir.
***
A tecnologia é saudável na medida em que seja um instrumento. A medicina
e a física são notáveis exemplos.
No entanto, quando a tecnologia deixa de ser instrumental para ser um
fim em si mesmo, saímos do campo da sanidade para o da enfermidade.
“Her” é um convite a nos depararmos com a enfermidade típica deste
século. O individualismo cada vez mais acentuado que encontra seu embiente propício na relação irracional com os computadores e suas tecnologias telemáticas. A
internet é o exemplo mais paradigmático.
Ernesto Sabato já havia feito este mesmo convite na década de 50 do século passado, com o seu livro "Hombres y engrenajes". É uma reflexão madura e profunda sobre os caminhos da ciência e a resistência da literatura. Foi duramente criticado.
Ernesto Sabato já havia feito este mesmo convite na década de 50 do século passado, com o seu livro "Hombres y engrenajes". É uma reflexão madura e profunda sobre os caminhos da ciência e a resistência da literatura. Foi duramente criticado.
Uma análise fria e distanciada do que se passa hoje das redes sociais é
possível constatar a solidão das pessoas. Manifesta-se por muitos modos, mas
mais ostensivamente através de uma persistente exposição narcísica e do demasiado tempo dedicado a olhar uma tela.
Talvez seja recomendável um teste. Deixar de utilizar a internet no
âmbito pessoal por uma semana e se perguntar o que exatamente lhe faltou nesse
período. Acredito que a resposta poderá indicar muitos caminhos.
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